Archive for the Joga bola Category

Craque

Posted in Joga bola on maio 11, 2011 by Schaffner

Texto do Ruy Miguel Tovar, pinçado daqui

Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho e Chico Buarque. Um poema bonito. Escrito há 31 anos. Quem viu, garante, não esquecerá.
É a 19 de Abril de 1980 que Bob Marley (o maior expoente da música jamaicana), Junior Marvin (guitarrista do Wailers) e Chris Blackwell (director da Island Records) chegam ao Brasil para participar numa festa da Island, a famosa editora discográfica. Aterram em Manaus para reabastecimento. E não só. O jacto não sai da pista por três horas. A ditadura militar do Brasil não vê com bons olhos aquela comitiva “esfumaçada”. Só após longas negociações as autoridades cedem ao desejo da equipa de Bob Marley mas não dão vistos de trabalho, o que impede a improvisação de um concerto, do agrado do povo brasileiro, louco por reggae. De Manaus para Brasília. Do Distrito Federal para o Rio.
É aí, com três horas de atraso, que os jamaicanos correm atrás do tempo, em direcção ao quilómetro 18 da Avenida da Sambaetiba, para um campinho onde estão à sua espera Chico Buarque, Toquinho, Alceu Valença e outros, todos da equipa da Island. As equipas são definidas num instante e escreve-se um dos mais belos poemas com Bob Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho e Chico Buarque. As imagens televisivas não mentem: era equipa de deuses! Antes de começar o jogo, Bob Marley ganha uma camisola 10 do Santos e sorri: “Pelé”, diz. De seguida, avisa todo o mundo que joga em qualquer posição. Um (poli)valente, portanto. No final, um claro 3-0 com golos de Bob, Chico e Caju, o tal suplente de luxo do Brasil campeão mundial em 1970, o Brasil de Pelé, Jairzinho, Gérson, Rivellino e Tostão. Outro belo poema.
Caju, amante do reggae, é o mais expansivo com Bob Marley. “Sou fã da sua música”, ao que o jamaicano responde: “E eu do seu futebol. Ainda me lembro do Mundial-70.” Pouco mais de um ano depois, em Maio de 1981, Bob Marley morre vítima de cancro, aos 36 anos. É enterrado com uns cachimbos de canábis, a sua guitarra Gibson Les Paul, a bíblia do movimento rasta e uma bola de futebol. Que coisa! Um homem que não faz uma única menção ao futebol nas suas canções, que nunca passaria um controlo anti-doping e que nasce num país acima nos rankings da pobreza e abaixo nos rankings da FIFA é um fanático de futebol.
Antes dos concertos, Bob só relaxa com uma bola de futebol (vá, um charrito ou outro…). Nas gravações, idem, idem. O autocarro das digressões tem instalada uma televisão para ver jogos de futebol. Inclusive, o seu manager é uma das estrelas mais gloriosas do futebol jamaicano: Alan Skill Cole, o primeiro homem nascido na ilha que jogou no Brasil, quando assinou pelo Náutico nos anos 70.
Estamos nos anos 70, insistimos. “Aquele miúdo negro com uma melena apelativa que cresce em Trechtown, entre jogos de futebol do Boys Town FC (camisola vermelha, futuro negro; 75 seguidores no Facebook) e corridas desenfreadas para fugir à polícia e alcançar o Olimpo como Usain Bolt, já era. Converte-se. Não é daqueles rockstar egocêntricos cheio de álcool e droga. É um mestiço terceiro- -mundista que fala de paz e liberdade. Os rapazes da CIA não lhe acham graça nenhuma e incluem-no na sua lista de má fé, com muita vigilância e perseguição à mistura. A dois dias de dar um recital pela paz, declaram-lhe guerra e sofre um atentado na sua casa da Jamaica. No pasa nada. Bob Marley discursa na mesma, mostra as feridas de guerra a rir e é aplaudido por 80 mil entusiastas.”
Entre viagens e concertos pelo mundo fora, Bob Marley finta quem lhe aparece à frente. Até a morte. Em Abril de 1977, durante um jogo em Inglaterra, pisam-lhe o dedo gordo do pé direito. Os médicos detectam-lhe uma forma de melanoma maligno. Aconselham-no a amputar o dedo. Marley diz que não. Três anos depois, a 20 de Setembro de 1980, visita Nova Iorque. Sai do Hotel Essex House, a sul do Central Park, e cai desamparado. O cancro avança. Cérebro, pulmões, fígado. Dão-lhe um mês de vida. Faz uma tentativa desesperada. Viaja para a Alemanha e é atendido por um ex-médico das SS. Melhora. Get Up, Stand Up. O cabelo cresce-lhe e até volta a jogar futebol (one love). Mas cai novamente. Irrecuperável. Só um desejo: morrer na Jamaica. Apanha um avião. Faz escala em Miami. Daí não passa. Entra no Hospital Cedars-Sinai de urgência e morre. A Jamaica chora, o mundo também. A obra mestra do reggae deixa-nos a 11 de Maio de 1981. É enterrado com uma bola de futebol. Um poema. Belo. Como este, que nos tranquiliza a todos: “Don”t you worry about a thing, cause every little thing is gonna be alright.”
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Estilo é tudo

Posted in Joga bola on abril 12, 2011 by Schaffner

Ozzy gremista

Posted in Balaio pop, Joga bola on março 31, 2011 by Schaffner

Beethoven, Ronaldo e a genialidade

Posted in Joga bola, Literatura on fevereiro 23, 2011 by Schaffner

Não li nada melhor nos quilômetros de textos publicados sobre a despedida de Ronaldo. Vale a pena conferir o texto do David Coimbra. A ilustração acima é do também genial Fraga.

Por que Beethoven era mau

As pessoas olhavam para Beethoven e nele viam um homem mau. É fácil perceber isso ao ler qualquer de suas tantas biografias. O próprio Beethoven não fazia nada para suavizar essa imagem. Ao contrário, tratava-se de um irritadiço que não poupava as pessoas da mediocridade em que viviam. Como era um gênio alçado muito acima da platitude dos mortais, pouco ligava para a caridade, a solidariedade ou a justiça social. Numa carta para um amigo, escreveu:
“Não quero saber de seu sistema ético. A força é a moralidade de um homem que se destaca do resto, e eu a tenho”.
De arrepiar. Alguém poderia dizer que isso era darwinismo puro uma geração antes de Darwin, ou Nietzsche puro duas gerações antes de Nietzsche, ou nazismo puro quatro gerações antes de Hitler. Não era nada disso.
Era solidão.
Obtive a prova ao deparar com uma carta que Beethoven escreveu aos seus irmãos, reproduzida num livro precioso e já esgotado, não adianta procurar: “As Grandes Cartas da História”, de Lincoln Schuster.
Nesse livro há uma carta de Alexandre, o Grande, para o homem que derrubaria e levaria à morte, o rei persa Dario III. Há uma carta de Agripina para seu filho Nero, ressaltando o amor de mãe, aliás inutilmente, já que logo depois ele ordenou que ela fosse estrangulada. Há cartas escritas pelos amantes proibidos Abelardo e Heloísa; pelo descobridor equivocado Cristóvão Colombo; pelos gênios Michelangelo e Leonardo da Vinci; por Blaise Pascal, o homem que contestou Descartes e disse que conhecemos a verdade não apenas pela razão, mas também pelo coração. E ainda há cartas de Spinoza, o meu filósofo favorito. Lá estão pulsando cartas de Voltaire, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, de Washington, Robespierre e Danton, de Napoleão a Josefina, de Faraday a Sara Barnard, de Victor Hugo, Byron, Keats, Poe e Dostoievski, de Dickens, Lincoln, Wagner e Tchaicovsky. De Zola. De Trotsky. E de Lênin, que advertia ser Stalin “um homem demasiado rude”.
Há uma troca de correspondências es-pe-ta-cu-lar entre dois dos homens que mais admiro na História: Will Durant e H. L. Mencken. Em 1933, Durant perguntou a vários intelectuais qual era, para eles, o sentido da vida. Mencken respondeu:
“O senhor me pergunta, em suma, que satisfação encontro na vida, e por que razão trabalho. Trabalho pela mesma razão que uma galinha põe ovos. Há em toda criatura viva um impulso obscuro mas poderoso de funcionamento ativo. A vida quer ser vivida. A inação, a não ser como medida de recuperação entre duas fases de atividade, é penosa e arriscada para a saúde do organismo – e de fato é quase impossível. Só os moribundos podem ser realmente ociosos”.
E por aí vai, atirando pérolas pelos parágrafos afora.

Pena que você jamais, eu disse JAMAIS!, vai ler esse livro. Porque esgotou-se, e eu não empresto.
Mas dizia que nesse livro há cartas de Beethoven. Algumas para sua namorada misteriosa, que ele chamava de “Amada Imortal”, e a tal, que me referi acima, para seus irmãos, nunca enviada, para ser lida apenas depois de sua morte. No texto, Beethoven discorreu pungentemente sobre sua surdez:
“Ó homens que me considerais ou me fazeis passar por odiento, cabeçudo ou misantropo. Como sois injustos para comigo! (…) Nascido com um temperamento fogoso e ativo, acessível mesmo às distrações da sociedade, cedo tive de me afastar dos homens, de levar uma vida solitária (…), castigado pela experiência redobradamente triste da minha surdez. (…) Não me era possível dizer às pessoas: fale mais alto, grite, que eu sou surdo. Como me seria possível revelar a fraqueza de um sentido que eu deveria possuir num grau mais perfeito do que os outros homens, um sentido que dantes tinha em mim a maior perfeição?”
Beethoven continua carta abaixo confessando que havia pensado até em suicidar-se, mas decidiu viver por amor à arte – ainda havia muito a fazer, e ele fez. Suas maiores obras, compôs surdo.

Por isso Beethoven parecia um homem mau – ele se afastava das pessoas de medo delas. Com medo de que percebessem sua deficiência e o julgassem menor do que era, ele que era imenso.
Que trágica ironia, o homem que, junto com Mozart, foi o maior gênio da música, terminar os seus dias sem poder ouvir. O sentido mais importante para Beethoven, o sentido que, sem trocadilho, dava sentido à sua vida, ele o perdeu. Ronaldo, um gênio da bola, não viveu algo semelhante, ao encerrar a carreira sendo encarado pelos medianos mortais como não mais do que um centroavante gordo? Riam de Ronaldo, como Beethoven temia que rissem dele. A mediocridade é cruel. Mas, quando a poeira da História toma assento, é o gênio que fica, e só o gênio, nada mais.

Jogada ensaiada

Posted in Joga bola on fevereiro 10, 2011 by Schaffner

Imortal Tricolor

Posted in Joga bola on outubro 24, 2010 by Schaffner

O filme da melhor torcida

Posted in Cinema, Joga bola on setembro 2, 2010 by Schaffner