Réquiem para o Garagem

 

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A inauguração propriamente dita, uma semanas após abertas as portas, foi com um show da Graforreia Xilarmônica. A despedida, com o casarão (bem mais) decrépito e já às escuras, foi uma noite após a saideira oficial, com uma roda de moleques tocando violão no centro do que havia sido a mais insana pista de dança da cidade.

Do gênese ao apocalipse, com suas devidas subtramas involuntárias, a história do Garagem Hermética é dissecada em A Fantástica Fábrica, saborosa biografia da lendária casa noturna de Porto Alegre. Durante oito anos, o 386 da Barros Cassal quase esquina com Independência pertenceu a Leo Felipe, um piá de 19 anos que tinha pela frente uma promissora (?) carreira de bancário quando decidiu abandonar o posto de operador de telex para abrir um bar. A família reprovou, os colegas de trabalho debocharam, mas Leo seguiu firme em sua inconsequência adolescente. Acabou erguendo um templo à esbórnia, à chalaça, um lugar onde as pessoas eram loucas e superchapadas, onde a essa altura da manhã já não importa o nosso bafo.

Pelo piso que “só não ruía porque balançava” do Garagem passaram bandas seminais do rock gaúcho, mas também a mais variada fauna de habitués do Bom Fim naqueles insepultos anos 90. O bairro era uma terra de ninguém, com traficantes, prostitutas e travestis dividindo espaço com punks, metaleiros e hippies nostálgicos, junkies das mais variadas estirpes rompendo a madrugada à espera da próxima dose – e do próximo atraque, embora todos reagissem com dissimulada indiferença às constantes e ostensivas batidas policiais. Alguma hora da noite, em geral nas derradeiras, fatalmente eles desembarcavam no Garagem Hermética, incendiando a madrugada com a irrefreável sede dos vampiros impertinentes. Nas noites mais loucas, nem mesmo os raios do sol que cozinhavam a manhã lá fora eram capazes de interromper a farra garageira.

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Leo era um guri que no trabalho besuntava os cabelos de gel para esconder as fartas melenas, mas sob a gosma e por detrás dos inocentes óculos de grau mantinha latejante a vontade de “ser um astro de rock ou pintor famoso ou poeta maldito ou qualquer coisa bem artística rebelde experimental, tipo morrer jovem e belo”. Acabou se tornando um totem da noite porto-alegrense, daqueles a quem a gente tanto presta reverência quanto golpeia com um machado à busca de lenha pro fogo. Não havia inocentes, tampouco salvação nas madrugadas do Garagem.

Dono de um legítimo e indomável espírito punk, o Leo é hoje um quarentão ainda magro e despojado, formado em jornalismo e mestre em Artes Visuais, curador de exposições, apresentador de rádio, produtor de festas e escritor, dentre outras tantas atividades para as quais seja necessário mais peito do que vocação, mais ímpeto do que talento, mais instinto do que certeza. Continua seguindo à risca o do it yourself e mandando bem em tudo que faz.

Para concluir A Fantástica Fábrica, ele se recolheu a São José dos Ausentes, o lugar mais gélido do Rio Grande do Sul. Voltou de lá com um relato incandescente sobre as noites que gerenciou, os bêbados que aturou, os perrengues contornados e incontornáveis, a falência sempre iminente, enfim, uma memória vívida dos anos em que aquele casarão insalubre fez da vida dele e de muitos convivas um mausoléu de trepadas inesquecíveis, porres homéricos, um desfile freak dos mais inverossímeis personagens do way of night life porto-alegrense.

O melhor é que é tudo verdade. E que o Leo se lembrou para contar. É a soberania dos fatos sobre as lendas. O Leo não poupa ninguém, nem ele próprio. É drogas, sexo e rock’n’roll da primeira à última página, um retrato escarrado de uma virgindade descabaçada a fórceps por uma juventude que queria tudo ao mesmo tempo agora. Porteiros, habitués, seguranças, os sócios e os detratores, o dono da barbearia abaixo e o tiozinho de chambre que vez por outra irrompia a festa. Os vizinhos que jogavam ovos e água fervendo na vã tentativa de diminuir o barulho. Os fiscais da prefeitura com medidores de ruído em punho. Os traficantes e os ladrõezinhos. O playboy e a putinha. O Edu K e seus clones. O Júpiter Maçã e seus seguidores. Os artistas gráficos, os intelectuais, os cineastas e a repórter de TV corrida aos gritos de gorda. Se não deixa saudades nem arrependimentos, o Garagem Hermética deixa ao menos um legado. De que a noite pode ser uma festa que nunca termina, um lugar legal pra mim dançar e me escabelar, com gente legal e cerveja barata, onde as pessoas sejam mesmo afudê. Um lugar do caralho. O Leo conseguiu. Eternizou em letra de forma essa odisseia onírica que habitou aquelas noites intermináveis. Acabou-se. E um pouco de nós acabou-se com elas. Embora eu nunca tenha pisado lá.

P.S.: Pra arrematar, A Fantástica Fábrica tem ilustrações de Diego Medina e prefácio de Daniel Galera. Imperdível.

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Uma resposta to “Réquiem para o Garagem”

  1. Comandante Maksoud Says:

    Bah, tu nunca foi lá?! Não tinha me dado conta disso. Rolou um “feitiço de Áquila”.

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