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Como se tornar escritor
Postado em Literatura em março 31, 2012 por Schaffner“10 conselhos de Carlos Drummond de Andrade a um escritor iniciante“
Por Michel Laub
Trechos (editados) da crônica A um jovem, publicada em A bolsa e a vida (1962):
1. Não acredite em originalidade, é claro. Mas não vá acreditar tampouco na banalidade, que é a originalidade de todo mundo.
2. Não fique baboso se lhe disserem que seu novo livro é melhor que o anterior. Quer dizer que o anterior não era bom. Mas se disserem que seu livro é pior que o anterior, pode ser que falem verdade.
3. Procure fazer com que seu talento não melindre o de seus companheiros. Todos têm direito à presunção de genialidade exclusiva.
4. Aplique-se a não sofrer com o êxito de seu companheiro, admitindo embora que ele sofra com o de você. Por egoísmo, poupe-se qualquer espécie de sofrimento.
5. Sua vaidade assume formas tão sutis que chega a confundir-se com modéstia. Faça um teste: proceda conscientemente como vaidoso, e verá como se sente à vontade.
6. Opinião duradoura é a que se mantém válida por três meses. Não exija maior coerência dos outros nem se sinta obrigado intelectualmente a tanto.
7. Procure não mentir, a não ser nos casos indicados pela polidez ou pela misericórdia. É arte que exige grande refinamento, e você será apanhado daqui a dez anos, se ficar famoso; se não ficar, não terá valido a pena.
8. Se sentir propensão para o gang literário, instale-se no seio de uma geração e ataque. Não há polícia para esse gênero de atividade. O castigo são os companheiros e depois o tédio.
9. Evite disputar prêmios literários. O pior que pode acontecer é você ganha-los, conferidos por juízes que o seu senso crítico jamais premiaria.
10. Leia muito e esqueça o mais que puder. Só escreva quando de todo não puder deixar de fazê-lo. E sempre se pode deixar.
O caso do assassinato literário
Postado em Literatura em outubro 21, 2011 por SchaffnerOutra investigação de Mercutio Pilgrin
por Edson Aran
Mercutio Pilgrin acendeu o charuto e olhou a neve acumulada lá fora. A pequena pensão estava totalmente isolada da civilização. Os oito hóspedes o fitavam com expressão enigmática.
Pilgrin apontou o cadáver sobre o tapete da sala.
“Eu já sei quem matou madame Escargot.”
“Quem?”, perguntou o inspetor Canard que, coincidentemente, era um dois oito hóspedes.
“Edmond Dantès! Desde que foi denunciado e preso como bonapartista, Edmond Dantès busca vingança! E finalmente, nesta casa isolada pela neve, ele conseguiu o que queria: matou madame Escargot! Sim, ele mesmo! Edmond Dantès. Ou devo dizer… o Conde de Montecristo?!”
Todos os hóspedes se entreolharam num silêncio constrangido.
Então o inspetor Canard disse:
“Pilgrin… Edmond Dantès é um personagem literário!”
Mergutio Pilgrin assoprou um anel de fumaça.
“É verdade, meu caro Canard. Não pode ter sido ele. Então foi… o índio Peri!”
“Maldito Mercutio Pilgrin!”, gritou um dos hóspedes, jogando fora o bigode postiço e o chapéu coco, revelando o cabelo em forma de cuia, adornado por uma pena de periquito.
Pilgrin explicou a trama macabra:
“Você enganou a todos fingindo que era coadjuvante de uma história de detetives, índio Peri. Até madame Escargot perceber que você só falava tupi-guarani!”
O silvícola foi imediatamente algemado pelo prestativo inspetor Canard. O policial, então, perguntou ao detetive:
“Como você descobriu que o índio Peri estava entre nós, Pilgrin?”
“Simples, meu caro Canard: ninguém consegue viver num romance do José de Alencar!”
Deixe a última dança para Satã
Postado em Literatura em setembro 2, 2011 por SchaffnerLi no Twitter do chapa Marcelo Orozco: Nick Tosches está com livro novo. O título é demais: “Save the Last Dance for Satan” (“Deixe a Última Dança para Satã”), mais uma coletânea de histórias sobre personagens iconoclastas – e hoje praticamente esquecidos – que fizeram a história dos primórdios do rock’n’roll.
Digo “mais uma” porque Tosches já tem outro livro sobre o tema: o indispensável “Unsung Heroes of Rock’n’Roll”, lançado em 1984 (e reeditado duas vezes depois, além de ter sido copiado incontáveis vezes por aí), com perfis de pioneiros do rock pré-Elvis como Jesse Stone, Big Joe Turner, Louis Jordan, Louis Prima e muitos outros.
Tosches tem dois livros curtos lançados no Brasil, “Criaturas Flamejantes” e “A Última Casa de Ópio”. Leia os dois. É uma ordem. Deveriam ser obrigatórios, como vacinas. Se você lê em inglês, compre também as biografias que ele fez de Jerry Lee Lewis, Dean Martin e do boxeador Sonny Liston. Se não lê em inglês, é uma boa hora pra aprender.
Assim que soube do novo livro, encomendei minha cópia. E comprei em formato sólido, old school mesmo. Nada de letras virtuais voando pelo cyberespaço rumo ao meu Kindle. Porque faço questão de ter os livros de Tosches na estante, como lembrete de uma época em que o rock metia medo, e os escritores também.
E não me venham como esse papinho mole de que o sujeito é saudosista, que só escreve sobre gente velha e morta, etc. Nick Tosches não escreve sobre novidades porque não se interessa. Porque respirou o ar de épocas mais interessantes e considera a cultura pop atual indigna de um segundo de seu tempo (entrevistei Tosches para a Folha, depois conto mais…).
Há uma diferença grande entre ser saudosista e simplesmente ignorar a cultura moderna. E se você tivesse passado boa parte de sua vida trocando figurinhas com Jerry Lee Lewis e Dean Martin, provavelmente não veria tanta graça mesmo na Lady Gaga.
Enquanto o livro novo não chega, saquei minha surrada cópia de “Unsung Heroes” para reler alguns capítulos. Será que alguém já escreveu tão bem sobre rock quanto Nick Tosches? Saca só:
“De uma vez por todas: o rock está morto. Mais morto que os anos 80. Mais morto que Liberace. Mais morto que o pênis papal. Morto. Bill Haley, o primeiro astro branco do rock, surgiu, virou merda e se foi, e isso antes do verão de 1954. Em outras palavras: o ciclo estava completo, a besta do rock’n’roll estava domada para o circo das massas, antes que Elvis – outro filho da puta morto – surgisse.”
Ou:
“Estamos nos anos 90, o que quer que isso signifique, e essa merda de cultura do rock’n’roll ainda nos atormenta. Olhe bem para a careca de Paul Shafer. Isso é o rock’n’roll hoje: uma banda de bar mitzvah liderada por um careca cretino (olhe debaixo do chapéu de Dion e você encontrará algo quase tão ruim: religião). É muzak no elevador para a meia-idade.”
Ou, ainda, meu trecho favorito:
“’We Are the World’ não é rock’n’roll. É o som da revista ‘Time’ chorando. Talvez o rock de verdade seja impossível, numa época de sexo seguro, quando a juventude da América está mais interessada no venal do que no venéreo.”
É instantâneo: toda vez que ouço falar de A Banda Mais Bonita da Cidade, Criolo, MPB indie e produtores culturais puxando o saco de estatais, lembro de Nick Tosches. O velhinho me lembra sempre que não é por isso que gosto de música.
O maior obstáculo do casamento
Postado em Literatura em agosto 21, 2011 por Schaffner“O maior obstáculo do casamento: queremos trepar com um corpo feminino disposto, cooperativo e favorável. E na verdade nos vemos obrigados a trepar com uma sócia contábil, uma parceira de negócios, uma consultora associada em matéria de pedagogia infantil, uma co-eleitora – e é bem possível que, numa dessas muitas capacidades, a mulher discorde energicamente do marido. Ainda assim, ela continua esperando uma trepada adequada. Eis o círculo vicioso do casamento entre autênticos parceiros: quanto mais o marido e a mulher compartilham todas as responsabilidades da vida, mais se vêem envolvidos em disputas em torno de questões não-sexuais, e são menos – como devia ser a condição básica dos amantes – simples pau e boceta. Quanto mais “moderno” o casamento, quanto mais abrangente o entendimento, menos provável será a união sexual. Ninguém sente uma inclinação irresistível de foder com o seu advogado, o seu gerente do banco ou o filósofo sempre disponível da vizinhança – especialmente quando, nessas três encarnações, a mulher tende a discordar das nossas atividades.”
Extraído dos “Diários de Kenneth Tynan“, livro ainda sem edição em português, mas que teve alguns de seus trechos (como o transcrito acima) publicados pela revista Piauí. Na foto, Kenneth Tynan.
James Ellroy vem aí
Postado em Literatura em junho 15, 2011 por SchaffnerO Barcinski entrevistou James Ellroy, o melhor escritor policial da atualidade. O cara tá vindo pra Flip em Paraty. Lê a entrevista e depois corre pra comprar Tablóide Americano, Seis Mil em Espécie e Sangue Errante. Também valem, e muito , a leitura de Jazz Branco (que tô devorando), Dália Negra e Los Angeles, Cidade Proibida, estes dois últimos transformados em filme. Sente o cara:
- Boa tarde, senhor Ellroy. O senhor está ansioso para vir ao Brasil?
- Sim, muito. Me disseram que o local da feira (Paraty) é muito bonito.
- É verdade, tem muitas praias e montanhas…
- Verdade? Que bom, gosto muito da natureza.
- “Sangue Errante” está sendo lançado no Brasil. O senhor se importaria se começássemos falando sobre a Trilogia “USA Underworld”?
- Não, de forma alguma.
- Quando o senhor terminou o “Quarteto de Los Angeles”, disse que estava cansado daquele tipo de histórias “noir”, e que planejava mudar de rumo.
- Eu não considero meus livros “noir”. Mas eu disse isso sim, eu queria fazer livros políticos e que falassem de ramificações geopolíticas.
- E como surgiu a idéia de uma trilogia de livros sobre o período de 1958 a 1972 nos Estados Unidos?
- Foi uma fase extremamente rica e terrível da história americana, com grandes personagens, J. Edgar Hoover, Howard Hughes, os Kennedy, Martin Luther King, Nixon. Mas na época eu era muito novo, só estava interessado em usar drogas e espiar mulheres, não saquei tudo que estava acontecendo. Depois, com o passar dos anos, pude perceber mais claramente como aquela época moldou a América que conhecemos hoje. Tive a idéia de contar a minha versão daqueles tempos.
- Os livros, apesar de serem obras de ficção, são detalhistas em relação a datas e acontecimentos reais.
- Sim, eu uso a realidade como suporte para dar a minha versão dos fatos.
- E como é o seu processo de pesquisa?
- Muito intenso. Tenho dois pesquisadores que me ajudam. Não quero ser acusado de erros factuais, então tudo é checado e rechecado. Para “Sangue Errante”, por exemplo, eu queria abordar a política do governo Nixon em relação à República Dominicana, que é um local importante para a história. Mas não havia dados suficientes nos arquivos americanos, então mandei um de meus assistentes à República Dominicana, e ele voltou com uma pesquisa incrível sobre a atuação de nosso governo lá no fim dos anos 60.
- O senhor mistura dezenas de personagens reais – Hoover, Hughes, os Kennedy – a personagens ficcionais. Se esse livro tivesse sido feito aqui no Brasil, garanto que seria proibido, porque nossas leis são draconianas e os herdeiros certamente o processariam.
- Eu não tenho esse problema. Nos Estados Unidos a lei diz que, se uma pessoa já morreu, você pode escrever o que quiser sobre ela.
- O que me impressiona muito nos seus livros são a linguagem telegráfica e a densidade da trama, com diversas histórias paralelas que acabam convergindo. Como é seu processo de criação?
- Sou um grande defensor da disciplina. Não existe liberdade artística sem disciplina. Eu escrevo todo dia, de 7 a 13 horas por dia. Quando começo um livro, primeiro faço uma espécie de resumo. Em “Sangue Errante”, por exemplo, o resumo tinha 200 páginas. Depois, fiz uma versão mais detalhada, com 400 páginas. Essa versão já tem todas as subtramas da história. Só depois que eu estou feliz e seguro com esse resumo, eu começo a escrever o livro, com todos os detalhes, diálogos, etc.
- E seu estilo? Como o senhor desenvolveu esse estilo de frases curtas, quase telegráficas?
- Eu já havia começado isso em “Los Angeles Cidade Proibida”, mas levei ao extremo na trilogia. Minha intenção é passar para a página uma maneira de escrever tão forte, densa e obsessiva quanto os temas que abordo. Eu quero que meus leitores reajam intensamente ao que escrevo.
- Os livros têm uma influência muito grande de textos jornalísticos sensacionalistas.
- Com certeza. Sou fascinado pela linguagem dos tablóides. Amo gírias, amo vulgaridade, amo profanação.
- O senhor escreve com frases minimalistas. Mas seus livros são longos, 600, 700 páginas. Deve ser exaustivo escrever assim (em 2001, Ellroy sofreu um colapso nervoso por exaustão e foi internado).
- Com certeza. Minha mulher – na verdade, agora ex-mulher – disse que meus livros são muito rigorosos para serem tão longos. Mas eu quero infligir esse tipo de linguagem ao leitor. Quero que eles vejam meus livros como grandes obras de arte, cuja estética e estilo reflitam a brutalidade da história. Aliás, estou curioso: você leu meus livros em português? Sabe como são as traduções?
- Nâo, li todos em inglês, mas posso garantir que o tradutor não teve uma vida fácil. Deve ser dificílimo traduzir as gírias e as expressões inventadas no texto.
- Sim, é verdade. Sei que as versões estrangeiras de meus livros costumam ser muito maiores que os originais em inglês.
- Com certeza. O português não é um idioma tão sintético quanto o inglês. Tanto que “Sangue Errante”, que no original tem 640 páginas, no Brasil tem mais de 900. E os livros são quase do mesmo tamanho.
- Você já viu a tradução?
- Li algumas páginas de “Seis Mil em Espécie” numa livraria outro dia, e a tradução me pareceu muito bem feita (de Ivanir Alves Calado).
- Que bom.
- Quais são seus próximos projetos?
- Estou começando a trabalhar no meu segundo “Quarteto de Los Angeles”. Serão quatro livros passados nos anos 40…
- Mas lembro de o senhor dizer que nunca mais escreveria um livro passado em Los Angeles…
- Sim, eu disse isso. Mas as pessoas têm o direito de mudar de idéia, não?
- Claro. E novamente o senhor volta ao passado? Quando poderemos ler algum livro seu sobre nossos tempos?
- Nunca!
- Nunca? Por quê?
Basicamente, porque não entendo o presente. Não estou sendo irônico, é a verdade: o presente não me interessa. Eu ainda uso uma caneta para escrever meus livros, não tenho computador, não vejo TV, e a máquina mais nova que tenho em casa é um fax. A cultura pop me deprime.
- Mas o senhor não acha que vivemos numa época interessante, com a ameaça do terrorismo, tensões no Oriente Médio, mudanças climáticas?
- Tenho certeza que sim, mas eu simplesmente não me interesso. Outro dia, no consultório do dentista, peguei uma revista e li um perfil sobre Bob Mueller, chefe do FBI. O artigo falava sobre um dia de trabalho dele, que basicamente consistia em falar com pessoas virtuais numa tela de plasma, responder mensagens pelo celular e conversar pelo computador. E isso é tão incompreensível para mim quanto uma conversa em português.
Texto pirata sobre blog pirata
Postado em Literatura em abril 29, 2011 por Schaffner
Conhecimento de graça? A web permite, mas a justiça não deixa. O texto abaixo, eu chupei do blog Prosa Online, dO’Globo. Assinada pelo Miguel Conde, a reportagem trata de um biblioteca criada na rede por um internauta ávido em facilitar o acesso ao saber. Um togado acha que tá errado. Leia mais e entenda a bronca.
Uma mensagem de violação dos termos de uso anunciou semana passada aos milhares de visitantes diários do blog Livros de Humanas a suspensão da página, que era hospedada pelo WordPress. Criado em 2009 por um aluno da USP, o blog formou em pouco mais de dois anos uma biblioteca maior do que a de muitas faculdades brasileiras. Até sair do ar, reunia 2.496 títulos, entre livros e artigos, de filosofia, antropologia, teoria literária, ciências sociais, história etc. Um acervo amplo, de qualidade, que podia ser baixado imediatamente e de graça.
Muitas pessoas, é claro, adoravam a página. Entre elas, no entanto, não estavam os editores dos livros reunidos ali. A biblioteca do Livros de Humanas era toda formada sem qualquer autorização.
- É óbvio que o blog desrespeita a legislação vigente – diz o criador da página, que mantém anonimato, numa entrevista por e-mail. – Mas não porque somos bandidos, mas porque a legislação é um entrave para o desenvolvimento do pensamento e da cultura no país.
O mesmo argumento foi defendido nos últimos dias no Twitter por intelectuais como o crítico literário Idelber Avelar, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a escritora Verônica Stigger e o poeta Eduardo Sterzi. Do outro lado da discussão, críticas à pirataria. A Editora Sulina, que vinha pedindo a remoção da página, falou em “apropriação indevida” e o escritor Juremir Machado escreveu: “Quem chama pirataria de universalização da cultura é babaca q ñ vende livro, mas quer q alguém pague a conta. Livro tem de ser barato e pago”.
O caso chama atenção para a ampliação da circulação de arquivos digitais de livros na internet, uma prática que dá novo sentido e escala à discussão sobre a circulação de cópias xerocadas no meio acadêmico.
Leia abaixo entrevista feita por email com o criador do Livros de Humanas.
Por que você criou o blog e como ele funcionava?
O blog nasceu no começo de 2009 (e saiu do ar na sexta-feira passada) para ser uma alternativa dos estudantes de letras da USP à copiadora que existe no prédio do curso e que tinha aumentado arbitrariamente em 50% (de 10 pra 15 centavos) o valor da cópia (o contrato de cessão de espaço com o Centro Acadêmico estabelece que a decisão deve ser conjunta). No começo havia a ideia de colocar apenas os textos das disciplinas de cada semestre. Esta iniciativa surgiu sem vínculo algum com o CA, que nunca se manifestou sobre o blog. No começo recebi de alguns colegas os programas das disciplinas e procurava na net se já existia cópia digital dos livros no 4shared ou similares. Se eu não encontrava, mas tinha o texto, escaneava. Por isso, no começo o blog era mais próximo dos meus interesses acadêmicos (mais crítica literária do que linguística, p. ex.) Também recebia textos de outros colegas e assim criamos o blog. No primeiro mês tínhamos menos de cem textos. Com o crescimento deste número e das visitas o blog deixou de ser apenas algo relacionado ao curso de Letras da USP (apesar de ter mantido o nome por mais um ano) e se tornou um depositário de textos da área de humanidades. O blogue saiu do ar com exatos 2.496 arquivos – não necessariamente livros, porque colocávamos também capítulos de livros, alguns de livros que surgiram inteiros no blogue tempos depois.
Com isso meu critério passou a ser o seguinte: se alguém enviava o arquivo eu publicava, independente do ano de publicação e seu estado no mercado (se era lançamento ou texto fora de catálogo). Porém eu só escaneio obra esgotada e que seja difícil de encontrar.
O perfil de seleção era bem básico: textos da área de humanidades ou correlatos. Tínhamos de obras do Will Eisner a livros sobre lógica. De autores brasileiros contemporâneos a material de ensino de língua estrangeira. De Sociologia a Ecologia. Majoritariamente entravam livros em português, mas tínhamos muitas obras em espanhol, inglês, italiano, alemão e francês.
Quantos usuários o blog tinha e qual o perfil deles?
No começo o público era quase que inteiramente uspiano. Nos últimos tempos era majoritariamente universitário, com visitas de todas as partes do globo. De estudantes de Nova Orleans (‘terra’ de um grande entusiasta do blogue, o professor Idelber Avelar) a visitantes dos PALOP (Países Africanos de Língua Portuguesa). Pelos e-mails de pedidos que eu recebia dava para traçar um perfil mínimo: são estudantes de universidades brasileiras com péssimas bibliotecas. É comum eu receber pedidos do tipo “preciso do livro tal para minha iniciação científica mas não o temos aqui e vi no dedalus (sistema de consulta da USP) que a biblioteca da FFLCH tem”. Não consigo – pelos dados informados pelo WordPress – determinar quantos visitantes únicos o blog recebia diariamente. Nos últimos meses a média de pageviews/dia passava de 10 mil. Em um ano no WordPress (antes o blogue estava abrigado no blogspot) passamos dos 1,8 milhões de pageviwes, uma média de quase 5 mil/dia.
Antes desse episódio recente você já havia tido algum outro problema?
Sim. Desde o começo links são retirados do ar. E logo depois, claro, eu colocava de volta. Ficamos – eu e ABDR (Associação Brasileira de Direitos Reprográficos) – neste gato e rato até o fim. Quando o blog ainda estava no Blogspot recebi do Google um aviso sobre infração às leis americanas de Direito Autoral. Daí mudei pro WordPress que é (ou achei que era) mais flexível. Algumas editoras me davam mais trabalho, como a Jorge Zahar e os livros do Zygmunt Bauman (“capitalismo parasitário” era o que tinha mais links retirados) mas nunca passou disso. Denúncia para os sites de hospedagem dos textos e livros. E é preciso dizer, apesar de óbvio, que não fui o responsável pela primeira disponibilização de quase todo o conteúdo do blogue. Mais procurei, editei e organizei num único centro os textos do que outra coisa.
Por que o blog saiu do ar?
Fora os e-mails da ABDR, nunca recebi nada de mais substancial. Nos últimos dias a Editora Sulina (inexpressiva, de quase 3 mil livros que tenho em casa apenas 3 são editados por ela) – seja por seu perfil ou de seu editor no Twitter – reclamou muito do blog e disse que tomaria medidas contra. E dias depois, sem aviso prévio, o WordPress retirou o blog do ar. E, se não me engano, temos 3, no máximo 5 livros dela. Honestamente, não sei apontar (até porque alguns – como os livros do Maffesoli, hoje editado pela Sulina – são de edições anteriores, como as da Brasiliense) quais são os livros reclamados. Editoras como a Companhia das Letras, que tem cópias de milhares de livros rodando na internet, nunca se manifestaram.
Algumas pessoas defenderam o blog dizendo que ele era como uma biblioteca pública. Concorda com a comparação?
Acredito que a comparação é ruim – posto que o blog é apenas um paliativo que nasceu das péssimas condições das bibliotecas públicas do país – porém não de todo despropositada. O blog era gratuito (tempos atrás fizemos um rateio com doações diversas para a compra de um hd para becape dos arquivos) e acessível para todos. Como uma biblioteca.
E o que você acha da crítica de que o blog desrespeita a legislação vigente?
Bem, é óbvio que o blog desrespeita a legislação vigente. Mas não porque somos bandidos, mas porque a legislação é um entrave para o desenvolvimento do pensamento e da cultura no país. O blog é tão ilegal quanto a cópia xerox nas universidades os sebos de livros antigos. E sem sebo e xerox uma universidade não funciona. Das bibliotecas universitárias a Florestan Fernandes (biblioteca da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) deve ser uma das 3 ou 4 mais completas do país. E mesmo contando com determinada obra, o número de volumes é insuficiente.
Um exemplo prático: O livro “O demônio da teoria” ficou por anos esgotado (foi reeditado no ano passado – e eu comprei o meu exemplar!) e possuía 3 exemplares na Florestan. Emprestei o livro, escaneei e hoje milhares de outros estudantes tiveram acesso a um texto fundamental para o estudo da teoria literária. A revisão da lei é uma necessidade de nossos tempos. Acreditava muito em avanços durante a gestão Gil/Juca no MEC. Mas o retrocesso defendido por este ministério novo é assustador.
Sem uma revisão da Lei de Direito Autoral que tente equilibrar estas duas demandas teremos mais problemas como este. As editoras de livros preferem seguir o estúpido caminho das gravadoras. E, se não acordarem logo, terão o mesmo destino.
Como possível futuro autor de obras acadêmicas, você consideraria normal que seus livros fossem distribuídos de graça?
Claro! Ainda mais se eu estiver vinculado a alguma universidade pública. A questão não deve ser essa. É óbvio que o autor deve ter remuneração por sua produção. Mas não podemos aceitar como normal que o critério para acesso a um texto (que é produto de sua época e dialoga com toda uma tradição intelectual – seja de domínio público ou não) seja o econômico. Um estudante sem dinheiro para pagar R$ 100 numa obra deve ser desprezado? Acredito que o direito ao acesso e a difusão do conhecimento se sobreponha ao do autor de receber dinheiro por sua obra.
Outro exemplo prático: quando ingressamos na Letras-USP usamos em elementos de linguística o livro “Introdução à linguística” (volumes I e II) editado pela Contexto. O livro é organizado por um professor da USP e os autores dos capítulos são também professores da casa, todos contratados em regime de dedicação exclusiva, além de contar com verba da órgãos públicos (Capes, CNPq, fapesp) de fomento. É justo que este profissional exija de 850 ingressantes (isso só na USP, o livro é usado em outras Instituições de Ensino Superior também) a compra dos dois volumes? E, principalmente, quem recebe este dinheiro? Porque os autores (são mais de dez por livro) recebem centavos de cada edição vendida por quase R$ 40 nas livrarias. Outra situação comum (desculpe se me concentro muito na USP, mas é de onde sou e de onde vejo tudo): livro escrito por pesquisador da USP, editado pela EDUSP ou pela Humanitas (editora da FFLCH) e sem exemplar nas bibliotecas da USP. Se não há cópia nas bibliotecas, por qual motivo não devemos copiá-los?
Por último, duas considerações. A primeira pessoal: Sem a contribuição de centenas de outras pessoas – sejam estudantes universitários ou não – o blog jamais existiria. Sou apenas quem procura na net, organiza os arquivos e escaneia dois ou três livros por mês. E, ao contrário do que acreditam editores como este da Sulina, sou do tipo que não possui e-reader, só usa xerox quando não tem jeito e ainda gasta meio salário mínimo por mês em livros físicos. O livro pirata não tira público do livro “oficial”. Não acho que a cópia pirata seja a responsável pelo número cada vez menor nas tiragens das editoras. Acredito no que disse o Gaiman quando veio pra Flip: “O inimigo não é a ideia de que as pessoas estão lendo livros de graça ou lendo na internet de graça. Da minha perspectiva o inimigo é as pessoas não lerem.”
A outra é de apoio político. Desde intelectuais do porte de Eduardo Viveiros de Castro e Idelber Avelar a novos pensadores e escritores como Eduardo Sterzi, Veronica Stigger e outros tantos (muitos deles seguidores do perfil do blog no Twitter) apoiam o blog. Todos os que citei aqui possuem obras no blog e deixaram de ganhar (segundo o cego argumento de alguns editores do país) algumas dezenas, talvez centenas, de reais. E não ficam bravos com isto. Pelo contrário, como certa vez tuitou o professor Avelar: “Piratearam meu 1º livro! Tá na net pra baixar. E eu, como autor, gosto disso: http://bit.ly/ikvMaR #PegaECAD”
Beethoven, Ronaldo e a genialidade
Postado em Joga bola, Literatura em fevereiro 23, 2011 por SchaffnerNão li nada melhor nos quilômetros de textos publicados sobre a despedida de Ronaldo. Vale a pena conferir o texto do David Coimbra. A ilustração acima é do também genial Fraga.
Por que Beethoven era mau
As pessoas olhavam para Beethoven e nele viam um homem mau. É fácil perceber isso ao ler qualquer de suas tantas biografias. O próprio Beethoven não fazia nada para suavizar essa imagem. Ao contrário, tratava-se de um irritadiço que não poupava as pessoas da mediocridade em que viviam. Como era um gênio alçado muito acima da platitude dos mortais, pouco ligava para a caridade, a solidariedade ou a justiça social. Numa carta para um amigo, escreveu:
“Não quero saber de seu sistema ético. A força é a moralidade de um homem que se destaca do resto, e eu a tenho”.
De arrepiar. Alguém poderia dizer que isso era darwinismo puro uma geração antes de Darwin, ou Nietzsche puro duas gerações antes de Nietzsche, ou nazismo puro quatro gerações antes de Hitler. Não era nada disso.
Era solidão.
Obtive a prova ao deparar com uma carta que Beethoven escreveu aos seus irmãos, reproduzida num livro precioso e já esgotado, não adianta procurar: “As Grandes Cartas da História”, de Lincoln Schuster.
Nesse livro há uma carta de Alexandre, o Grande, para o homem que derrubaria e levaria à morte, o rei persa Dario III. Há uma carta de Agripina para seu filho Nero, ressaltando o amor de mãe, aliás inutilmente, já que logo depois ele ordenou que ela fosse estrangulada. Há cartas escritas pelos amantes proibidos Abelardo e Heloísa; pelo descobridor equivocado Cristóvão Colombo; pelos gênios Michelangelo e Leonardo da Vinci; por Blaise Pascal, o homem que contestou Descartes e disse que conhecemos a verdade não apenas pela razão, mas também pelo coração. E ainda há cartas de Spinoza, o meu filósofo favorito. Lá estão pulsando cartas de Voltaire, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, de Washington, Robespierre e Danton, de Napoleão a Josefina, de Faraday a Sara Barnard, de Victor Hugo, Byron, Keats, Poe e Dostoievski, de Dickens, Lincoln, Wagner e Tchaicovsky. De Zola. De Trotsky. E de Lênin, que advertia ser Stalin “um homem demasiado rude”.
Há uma troca de correspondências es-pe-ta-cu-lar entre dois dos homens que mais admiro na História: Will Durant e H. L. Mencken. Em 1933, Durant perguntou a vários intelectuais qual era, para eles, o sentido da vida. Mencken respondeu:
“O senhor me pergunta, em suma, que satisfação encontro na vida, e por que razão trabalho. Trabalho pela mesma razão que uma galinha põe ovos. Há em toda criatura viva um impulso obscuro mas poderoso de funcionamento ativo. A vida quer ser vivida. A inação, a não ser como medida de recuperação entre duas fases de atividade, é penosa e arriscada para a saúde do organismo – e de fato é quase impossível. Só os moribundos podem ser realmente ociosos”.
E por aí vai, atirando pérolas pelos parágrafos afora.
Pena que você jamais, eu disse JAMAIS!, vai ler esse livro. Porque esgotou-se, e eu não empresto.
Mas dizia que nesse livro há cartas de Beethoven. Algumas para sua namorada misteriosa, que ele chamava de “Amada Imortal”, e a tal, que me referi acima, para seus irmãos, nunca enviada, para ser lida apenas depois de sua morte. No texto, Beethoven discorreu pungentemente sobre sua surdez:
“Ó homens que me considerais ou me fazeis passar por odiento, cabeçudo ou misantropo. Como sois injustos para comigo! (…) Nascido com um temperamento fogoso e ativo, acessível mesmo às distrações da sociedade, cedo tive de me afastar dos homens, de levar uma vida solitária (…), castigado pela experiência redobradamente triste da minha surdez. (…) Não me era possível dizer às pessoas: fale mais alto, grite, que eu sou surdo. Como me seria possível revelar a fraqueza de um sentido que eu deveria possuir num grau mais perfeito do que os outros homens, um sentido que dantes tinha em mim a maior perfeição?”
Beethoven continua carta abaixo confessando que havia pensado até em suicidar-se, mas decidiu viver por amor à arte – ainda havia muito a fazer, e ele fez. Suas maiores obras, compôs surdo.
Por isso Beethoven parecia um homem mau – ele se afastava das pessoas de medo delas. Com medo de que percebessem sua deficiência e o julgassem menor do que era, ele que era imenso.
Que trágica ironia, o homem que, junto com Mozart, foi o maior gênio da música, terminar os seus dias sem poder ouvir. O sentido mais importante para Beethoven, o sentido que, sem trocadilho, dava sentido à sua vida, ele o perdeu. Ronaldo, um gênio da bola, não viveu algo semelhante, ao encerrar a carreira sendo encarado pelos medianos mortais como não mais do que um centroavante gordo? Riam de Ronaldo, como Beethoven temia que rissem dele. A mediocridade é cruel. Mas, quando a poeira da História toma assento, é o gênio que fica, e só o gênio, nada mais.
Boteco beat
Postado em Literatura em fevereiro 14, 2011 por SchaffnerMatéria da Karla Monteiro n’O Globo, sobre o hot point da literatura brazuca. Passa lá.
São Paulo, Vila Madalena, cruzamento das ruas Rodésia e Jericó, cinco da tarde de uma quarta-feira. Precisamente: Mercearia São Pedro. Para os íntimos, Merça. Antes de penetrar na história da Merça, nos quês e porquês que a tornaram o centro etílico da literatura em São Paulo, segunda casa de gerações de escribas e cenário dos lançamentos mais concorridos da capital paulista, vamos ouvir o papo na mesa de Reinaldo Moraes. O cara virou “O” cara, a celebridade local. “Pornopopéia”, seu livro lançado pela Objetiva, vendeu sete mil cópias, número considerável para os padrões nacionais, e se tornou um cult. No final de fevereiro, sai na versão pocket. Segundo Reinaldo, versão “pocketão”, para “bolso de calça de palhaço”, porque tem 661 páginas. Os dois primeiros livros do autor, “Tanto faz”, de 1983, e “Abacaxi”, de 1985, também estarão de volta às livrarias em março, numa edição “dois em um” da Companhia das Letras. Reinaldo encontra-se numa mesa com amigos: o ensaísta e escritor americano Matthew Shirts, o cartunista Caco Galhardo e a fotógrafa Luciana De Francesco, ex-mulher do escritor Mário Prata.
Caco: Sabe que eu acabei de chegar do Rio, né, Rei? Fui encontrar o Jaguar. Saquei que o Jaguar faz nos desenhos a mesma coisa que você faz na literatura.
Reinaldo: – O quê? Merda?
Caco: – Não, meu, piada infame.
Matthew: – Eu também tava no Rio, lançando o meu livro ( “O jeitinho americano”, na semana passada). Meu, o Faustão faaaaaalou do meu livro no programa, muito louco.
Reinaldo: – Vai rolar uma sensível ereção nas vendas.
Matthew: – Sabe o que mais me impressionou no Rio? As pessoas aplaudem o pôr do sol.
Reinaldo: – E quando chove, vaiam?
Matthew: – Maior barato, Rei. Uma atitude pré-Iluminismo.
Reinaldo: – Quem quer pastel?
Os pastéis são uma tradição da casa, circulam fumegantes em bandejas todos os fins de tarde. E todos os fins de tarde até os fins de noite, tem galera ali. A Merça não para. Os escritores dominam, embora cartunistas e cineastas façam concorrência. A bebundagem literária no local começou no ano de 1984, com Reinaldo, Mário Prata e Matthew Shirts. Nos anos 90, o lugar ficou meio esquecido pelas letras. E, no início dos 2000, retomou a vocação. Hoje todos os lançamentos badalados de São Paulo acontecem ali, no mafuá: a Merça é um bar; uma mercearia (vende biscoitos, ketchup, óleo de cozinha, detergente etc.); uma videoteca com um grande acervo de filmes raros; e uma livraria cult. A média de lançamentos na Merça é de quatro por mês. “Pornopopéia” foi lançando lá. Vendeu mais de 200 cópias na noite de autógrafos. Para o próximo mês já estão programados dois eventos: “Canções para tocar no inferno”, o primeiro livro de contos de Mário Bortolotto; e “Ua-brari”, relançamento de um livro esgotado de Marcelo Rubens Paiva.
- A Merça é o polo, aqui nascem projetos, amores, amizades. Tem um pouco a ver com um movimento que está rolando em São Paulo, que não é só da literatura: o colaboracionismo, o se juntar para fazer acontecer. Junta quatro ou cinco, faz uma antologia. Junta dez, uma revista. Não temos nada a ver no estilo de texto, mas temos no espírito, nos livros que a gente lê, nas viagens de que gostamos – diz o escritor e jornalista Ronaldo Bressane. – Não temos pudor de falar dos nossos livros em blogs e sites, de bombar os lançamentos na Merça. As pessoas dizem que bebemos mais do que escrevemos e só falamos de nós mesmos. Mas o espírito é esse: uma coisa dionisíaca. Todo mundo fica muito bêbado e fala muita merda. Uma esculhambação.
Quando Bressane diz “nós”, ele está falando de uma turma que vai de Mário Prata a Antônio Prata, duas gerações de escritores que decidiram frequentar a mesma balada e fazer disso, de certa forma, um movimento literário. O núcleo ativo da Merça está devidamente publicado no livro de contos “Uma antologia bêbada: fábulas da Mercearia”: Andréa Del Fuego, André Sant’Anna, Antônio Prata, Bruno Zeni, Chico Mattoso, Clara Averbuck, Índigo, Ivana Arruda Leite, Joca Reiners Terron, José Alberto Bombig, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Matthew Shirts, Nelson de Oliveira, Reinaldo Moraes, Ronaldo Bressane e Xico Sá. Essa galera bate ponto. Na, digamos, retomada da Mercearia São Pedro, Joca puxou a fila:
- Em meados dos 90, a Merça estava caída. Tinha acontecido a efervescência dos 80 e tal. Mas eu não sabia. Passei a vir aqui porque era mais isolado. A Vila Madalena já estava sendo tomada por esses bares fakes, bregas. Na mesma época, a gente começou a se conhecer nuns encontros literários que rolavam numa livraria daqui da Vila. Ficamos amigos e não tínhamos um bar. Como eu frequentava a Merça, passei a trazer as pessoas – conta Joca. – Em 2002, fizemos o primeiro lançamento, com um livro meu e outro do Daniel Galera. Foi um sucesso. A gente, então, se desvinculou totalmente dos lançamentos em livraria. A Merça virou referência de literatura. Mas falamos mesmo é de mulher e de cachaça. Não vejo como um movimento literário. É mais um movimento para pegar mulher. Tem a dança do balcão, o ula-ula, a fricção. O Marquinho ( Benuthe, dono da Mercearia) é o ministro da Cultura da Vila Madalena. E o Reinaldão, o tiozão beatniquim.
Reinaldo retruca:
- Beat é o caralho! Literatura bitch, a literatura cadelona.
Datilografia
Postado em Literatura em dezembro 17, 2010 por SchaffnerDo recém-inaugurado tumblr do Tognolli:
Orgias picarescas
Postado em Literatura em dezembro 6, 2010 por SchaffnerBaita perfil de Reinaldo Moraes, publicado por Alvaro Costa e Silva ontem na Folha
O SUJEITO poderia ser vizinho do leitor; talvez o conheça de chapéu.
Ele acorda cedo para fazer o café e levar as filhas, Dora, 13, e Laura, 10, à escola. Na volta, lê os jornais de cabo a rabo. Cozinha melhor que a mulher, segundo ela. Para completar, lava a louça.
Não é sedentário: caminha célere, pelo menos uma hora por dia, no Ibirapuera. Também gosta de nadar. Deve ser por isso que, aos 60 anos, não tem barriga: continua o mesmo pirulão que cresceu no Butantã. Ou, na cruel autodefinição que deu num de seus contos, “cinquentão, cabelo curto grisalho, um George Clooney depois de uma varíola complicada, pneumonia dupla e dipsomania terminal. Mas não era feio, se é que alguém me entende”.
Por isso, convém alertar o leitor que a aparência pacata do sujeito no elevador pode esconder um pornógrafo –talvez o mais desbragado da cidade, autor de “Pornopopéia” (ed. Objetiva), o romance de 2009 que recolocou Reinaldo Moraes com os dois pés na melhor literatura feita no país.
O acento no título, que com o novo acordo ortográfico deveria ter caído, foi mantido a pedido do autor, para preservar um trocadilho: “Não bastasse a minha veia boêmia, ainda fui arranjar uma véia boêmia”. A gracinha tem data de validade: 2013, quando a nova ortografia passará a ser obrigatória. Mas não o livro: pouco a pouco, à medida que os leitores foram vencendo as 480 páginas, “Pornopopéia” virou assunto e se impôs como uma das verdadeiras novidades literárias no país.
A melhor síntese da trama foi dada pelo autor aos amigos que queriam saber o que ele tanto batucava no computador ao longo daqueles cinco anos: “É a história de um cara que, em um dia, faz todas as merdas que eu fiz na vida”.
Um dia não bastou, e a trama principal de “Pornopopéia” acaba levando dois.
Feito de pura galhofa, “Pornopopéia” é uma suma da cultura boêmia e literária do autor, como se um beatnik tivesse molhado a pena no tinteiro de Émile Zola. Por isso, caiu nas graças da crítica, coisa rara entre os ficcionistas contemporâneos.
O crítico Roberto Schwarz comprou vários exemplares do romance –finalista dos dois maiores prêmios literários do país, o São Paulo e o Portugal Telecom– para dar de presente aos amigos.
“O que me impressiona no ‘Pornopopéia’ é a combinação de registro chulo com escrita elaborada e inventiva, resultando uma peça inteiramente nova na literatura brasileira”, explica Schwarz. “Um dos pontos mais ambiciosos do livro é fazer alta ficção sobre embutidos de frango, o que, de maneira oblíqua, manifesta uma forte insatisfação social. É claro que Reinaldo Moraes, sendo um autor culto, sabe muito bem se aproveitar da tradição, principalmente se pensarmos em autores como Manuel Antônio de Almeida e Machado de Assis. Mas o melhor é que sua obra aponta para o novo.”
Responsável pela programação da Flip deste ano –que teve Reinaldo como autor convidado–, o crítico Flávio Moura considera o romance um dos melhores surgidos nos últimos anos no cenário brasileiro: “‘Pornopopéia’ possui um refinamento e um artesanato literário que está muito além do ego desgovernado, e muitas vezes desleixado, de autores associados ao universo underground”.
A crítica literária Leyla Perrone-Moisés também se empolgou, quase a contragosto: “Antes de começar o romance, eu achava que não ia gostar. Mas não consegui parar de ler. Lembrando as memórias de Casanova, a intriga é muito bem construída e os personagens, não só o narrador como também os secundários, possuem um contagiante senso de humor”.
“Pornopopéia” arrancou elogios até de Alcir Pécora, crítico conhecido por demolir escritores contemporâneos nas resenhas que publica na Ilustrada. Pécora elogiou seu “domínio perfeito do idioma” e sua “veia cômica” –não “véia”, bem entendido.
O que o autor acha dos aplausos? “Eu esperava um silêncio tingido de porradas. Vieram muitas palmas e algumas aclamações enfáticas. Ou o livro é bom mesmo ou as pessoas andam lendo coisas muito chatas ultimamente.”
ESCREVEÇÃO Depois de “Abacaxi” (L&PM), romance de 1985, foram 17 anos sem voltar a publicar ficção. Mas quando o fluxo de escreveção diária foi retomado, veio a galope: em 2002, começou a publicar em revistas literárias alguns contos que satirizam a classe média paulistana, reunidos na coletânea “Umidade” (Cia. das Letras, 2005); depois veio “A Órbita dos Caraóis” (Cia. das Letras, 2003), novela “infanto-senil” em torno de satélites e escargots.
No meio-tempo, uma encomenda: “Estrangeiros em Casa”, reportagem literária praticamente ignorada, que saiu em edição especial da revista “National Geographic”, feita com o fotógrafo Roberto Linsker, por ocasião dos 450 anos de São Paulo. Os dois percorreram a cidade a pé, de sul (o bairro de Marsilac) a norte (Cantareira), registrando e comentando com graça o que viam pelo caminho.
Outros projetos nasceram e morreram, como a peça teatral em que o único ator dialoga com um poço que apenas emite sonoros flatos em resposta. A obra foi submetida ao crivo dos amigos. “Todo mundo abominou”, diz ele, e a peça voltou à obscuridade.
No momento, ele trabalha numa novela prevista para ficar com 200 páginas, encomenda da editora Objetiva. Com o título provisório “A Travessia de Suez”, é a história de um poderoso bicheiro que, ao morrer e chegar ao céu, descobre que foi uma encarnação de Deus. “É uma breve e descompromissada disquisição sobre a vontade de poder do ser humano que quase sempre acaba em barranco, bate na trave, dá com os burros n’água”, esclarece o autor.
Também está a caminho um romance ambientado na Cidade do México, para o projeto Amores Expressos, que levou alguns escritores brasileiros a capitais internacionais para criar histórias de amor. Até o fechamento desta edição, o arquivo de Word contava 373.621 toques com espaços, metade do que o livro deverá ter, calcula o escriba.
Reinaldo trabalha em dois escritórios. Um deles abriga livros de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Oswald de Andrade, sua santíssima trindade; “Jacques, Le Fataliste”, de Denis Diderot; os romances “Pornografia” e “Ferdydurke”, ambos do polaco-argentino Witold Gombrowicz; o descoladíssimo “Benn Down So Long It Looks Like Up To Me”, de Richard Fariña.
O outro fica dentro do boxe do banheiro da suíte do casal. Com o chuveiro desativado, o escritor houve por bem instalar ali uma mesinha minúscula, com dois ou três dicionários e um computador, sob a permanente ameaça do cano do chuveiro, precariamente vedado com trapos. A extravagância, que a mulher, a editora Marta Garcia, define como “cena” armada para divertir as visitas, se deve ao barulho de uma construção no terreno ao lado.
O próprio autor confessa que escreve pouco naquele cafofo revestido com azulejos rosa-bebê dos anos 70: prefere o escritório tradicional, mesmo com a obra ao lado. Trabalha, porém, com tapa-ouvidos de silicone e um potente protetor auricular, desses usados por operários ou funcionários de aeroportos. Marcel Proust não imaginaria um modo tão perfeito de se isolar do mundo para escrever.
Ok, mas “A Travessia de Suez” vai ficar nas 200 páginas? “Pornopopéia”, que Marta só leu depois de pronto, levou cinco anos sendo matutado, escrito e reescrito. Os amigos ficaram boquiabertos quando o texto atingiu a marca de 1 milhão de caracteres, ou seja, 67 vezes esta reportagem.
Trata-se da famosa tendência de Reinaldo ao excesso. “Sempre digo a ele que até cinco adjetivos para um substantivo tudo bem, mas sete, de jeito nenhum”, brinca a editora e tradutora Heloisa Jahn, que trabalhou com ele na edição de “a Órbita dos Caracóis” e “Umidade”.
Mesmo “enxuto”, “Pornopopéia” resultou num catatau. “Fechamos negócio e fizemos um acordo: cortar pelo menos 300 páginas. Foi difícil. Mas foi bom. Reinaldo me exasperou por alguns meses, indo e voltando nas mudanças que acertávamos, discordando, regateando. Cheguei a pensar que não chegaríamos ao ponto final”, diz Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva.
Lançado em 2009, o romance caiu como uma bomba de efeito imoral. “Culto e grosso”, na definição da atriz Eliana Fonseca.
De cara, na primeira linha, uma exortação: “Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa”. Ainda na primeira página, o narrador explica a natureza do bloqueio criativo que o domina: “Porra, mas eu sou cineasta, caralho. Artista. Não nasci pra rodar vídeo institucional. E de embutidos de frango, inda por cima, caceta!”.
Segue-se uma logorreia interminável, porém deliciosa –só a cena da suruba, ou “surubrâmane”, como quer o narrador, avança em tempo real por 80 páginas–, com direito a digressões de fazer Sterne enfiar a cabeça debaixo do lençol. Uma história escrita na melhor tradição picaresca à brasileira. Quem conta é o ex-cineasta marginal e dependente químico José Carlos Ribeiro, mas pode chamar de Zeca que ele não liga.
Só não vale confundir autor e narrador. Em entrevista a Jô Soares, esclareceu a diferença entre autor e o herói: “Ele tem os olhos azuis, os meus são castanhos”.
Quem conhece bem a peça –como Maria Emília Bender, diretora editorial da Companhia das Letras, que dividiu, nos anos 70, um apartamento com Reinaldo e um amigo– sabe que ele sempre teve alma de escriba exagerado.
A dureza era estudar administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas, onde acabou se formando. Em 1976, entrou na recém-criada Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap). “Ele morava tão perto do trabalho que às vezes mandavam um boy acordá-lo no meio da manhã, porque corria o risco de não aparecer”, recorda Maria Emília.
A literatura era seu negócio desde os tempos em que, como perfeito coroinha, surrupiava vinho na capela do Jockey Club, no Butantã. “Aprendi a falar ‘sursum corda’ [corações ao alto], ‘introibo ad altare Dei’ [entrarei ao altar de Deus] e a melhor frase de todo o missal: ‘ite missa est’”, a frase que sinaliza o fim da missa.
“Acompanhava o padre na hora de servir a hóstia aos comungantes, colocando a patena [bandejinha] debaixo do queixo do freguês, para impedir que um pedaço do corpo de Cristo viesse, por descuido, a cair no chão impuro dos homens”, lembra Reinaldo, que também serviu na igreja do Calvário, em Pinheiros.
“Um belo dia, o Rei me mostrou um conto. Uma história engajada e naturalista. Uma miséria, literalmente. Não tive pena: disse que ele tinha de partir para outra”, conta Maria Emília.
A outra era Paris. O encontro de Reinaldo Moraes com a cidade, em 1979, foi decisivo. Sua vida de bolsista “vagal”, que matava as aulas de economia na faculdade para cair na boemia desbragada, lhe daria o substrato para o romance que o lançou com estardalhaço, no começo dos anos 80: “Tanto Faz”. Foi para lá graças a um convênio com o governo francês: “Só aceitavam para a pós-graduação alunos do Terceiro Mundo. Super de esquerda, era uma escola para ensinar negão a carimbar. Mas carimbar da maneira correta”.
Nesse período em Paris, Reinaldo Moraes virou romancista. Escrito nas horas vagas, o livro acabou publicado em 1981, na coleção Cantadas Literárias, da editora Brasiliense, a mesma de “Feliz Ano Velho”, de Marcelo Rubens Paiva, e “Morangos Mofados”, de Caio Fernando Abreu.
O livro se tornou objeto de culto instantâneo desde a noite de autógrafos, realizada num fliperama da rua Augusta. Amigos do autor entram em cena, como a poeta carioca Ana Cristina Cesar, sempre sob codinomes. Em vez de assinar livros, Reinaldo levou para o lançamento um carimbo que imprimia a forma de um beijo.
O dramaturgo Mário Bortolotto foi um daqueles fãs de primeira hora. Mais tarde, levaria o livro ao palco. “Jamais imaginei que alguém pudesse escrever de maneira tão livre, tão descompromissada, tão pop e, caralho!, tão bem. Acho que seria o mesmo que descobrir Machado de Assis no tempo dele”, escreveu Bortolotto no posfácio à edição da Azougue, revista pelo autor, de 2003.
A primeira crítica na imprensa desceu a lenha de tal modo que muita gente confessou ter comprado o livro justamente por causa dela. A reação veio em seguida: um texto do poeta Cacaso levantando a bola, na revista “Veja”.
Mas o estrago já estava feito. Não faltou quem fosse soprar aos ouvidos do dono da Brasiliense, Caio Prado Jr., que o romance punha em risco a credibilidade artística e ideológica da coleção. “O Caio passou a achar a narrativa incoerente, aleatória e, pior, alienante”, diz Reinaldo. “Ele mesmo me disse isso uma vez, com toda a simpatia que o caracterizava.”
A editora acabaria fazendo apenas uma reimpressão de “Tanto Faz”, igualmente disputada e logo esgotada. A edição da Brasiliense está cotada num sebo virtual a R$ 120. A da Azougue, no mesmo site, vale R$ 100. Há somente um exemplar de cada à venda.
O culto à obra deverá crescer ainda mais quando a Companhia das Letras mandar para as livrarias, no início do ano, a edição conjunta de “Tanto Faz” e “Abacaxi”, o segundo romance de Reinaldo. Ambos foram revistos linha a linha para limar os “excessos” da juventude, diz o autor.
“Tanto Faz” foi responsável por selar fortes amizades. “O que me chamou a atenção foi a descrição de um x-salada, um dos pilares da cultura paulistana moderna. Ninguém antes havia feito ficção daquela maneira”, diz o jornalista americano radicado em São Paulo Matthew Shirts.
Durante os anos 80 e 90, Mario Prata, Matthew Shirts e Reinaldo Moraes formaram um “trio parada dura” da boemia paulistana. “Se eu não me mudasse para Floripa há nove anos, um ou dois de nós já estariam mortos. Ou os três. Era uma química etílica barra pesada”, reconhece Prata.
Dois leitores muito especiais, porém, desgostaram de “Tanto Faz”. “Os velhos ficaram magoados com uma passagem em que o narrador alimenta a fantasia típica de filho único de não ter pai nem mãe, de ter surgido por geração espontânea, sem ter que prestar contas a ninguém”, diz o autor.
“Também não engoliram a desenvoltura com que o filhinho único deles tratava de sexo e drogas. Coincidência ou não, meu pai caiu doente de câncer no cérebro depois de ler o livro. Morreu um ano e meio depois, consumido até o osso pela doença, deixando-me consumido até a alma pela culpa. Posso dizer que matei a família e fui parar nos sebos do país”, diz.
A psicanalista Maria Rita Kehl –com quem Reinaldo foi casado entre 1983 e 1991 e teve a filha Ana, de 24 anos– recorda-se bem dessa época: “Eu sozinha em casa e o Reinaldo… onde estava? Brincando de Kerouac ou Bukowski na Mercearia São Pedro. Brigávamos muito por causa disso, e eu não tinha nenhum jogo de cintura para lidar com ele.” Mas lembra: “Reinaldo era bem molecão, fazia de tudo para a gente se divertir até debaixo de chuva, com lama e casa desconfortável. Ele sempre foi, ainda é, muito afetuoso”.
O escritor Ruy Castro, embora não tenha sido casado com Reinaldo, também implica com esse lado farrista: “Esse complexo de Bukowski já estragou e ainda vai estragar várias gerações. Por que tantas pessoas veem esse farsante como modelo? O Reinaldo é dez vezes melhor do que o Bukowski. Mas, claro, ele não pode acreditar…”.
Mesmo Ruy Castro se surpreende com o comportamento do amigo: “Fico sabendo de coisas altamente desabonadoras para quem pretende se passar por boêmio full time: o pai extremado levando as filhas para comer pizza na esquina; preparando Toddy para elas no fim da noite; indo passar uma semana em Araxá com a família. Enfim, o marido perfeito, o pai integral, certamente o bom filho também”.
Entre os passeios que volta e meia faz com a família estão, por exemplo, excursões ao parque aquático Wet’n Wild (por ele carinhosamente chamado de “Loucas e Molhadas”).
O pai de família, no entanto, não deixa de protagonizar cenas cômicas, como o banho que tomou no laboratório de química da escola das filhas, durante uma reunião de pais. Macambúzio, ele ficou na retaguarda do grupo de pais que ouviam a preleção da diretoria sobre as novas instalações.
Acabou cedendo à curiosidade e puxou uma manopla que pendia do teto do laboratório –e, para deleite dos circunstantes, tomou na cabeça uma carga de centenas de litros de água, destinada a lavar rapidamente qualquer substância tóxica em caso de acidente.
O segundo livro, “Abacaxi” –que não honra o título– revelou-se um solene fracasso, não de crítica, mas de vendas. Reinaldo abriu uma cerveja e se perguntou: “Fazer o quê?”. Começava aí o período de 17 anos sem publicar. Mas não sem escrever.
Reinaldo se transformou num homem-frila. Fez todo tipo de freelance literário que se possa imaginar: roteirista de novela (trabalhou em “Helena”, adaptação de Mario Prata do livro de Machado de Assis para a TV Manchete; “O Campeão”, da Band, também como colaborador de Prata; “Bang Bang”, da Globo, na equipe de seis colaboradores); de cinema (criou e escreveu a primeira versão do roteiro de “Tainá – Uma Aventura na Amazônia”); de sitcom (em parceria com Eliana Fonseca em “Ô, Coitado”, com Gorete Milagres); tradução e adaptação para teatro (“O Bebê Furioso”, “O Legítimo Inspetor Perdigueiro”, “Os Monólogos da Marijuana”); traduções de Bukowski (“Mulheres”), Burroughs (“Junky”), Cocteau (“Ópio”), Pynchon (“Vineland”, com Matthew Shirts); orelhas de livro (assinadas ou não) a mancheias.
É também o autor da lendária foto da capa do LP “Todos os Olhos”, de Tom Zé, peripécia que narrou na seção “Arquivo Aberto” da Ilustríssima (leia em folha.com/ilustríssima).
Fez, também, alguns vídeos institucionais –mas destes ele não gosta nem de lembrar.
Vida bandida
Postado em Literatura, Música em novembro 27, 2010 por Schaffner
Um final de ano pródigo em biografias do universo pop. Hoje sai a do Lobão. Olha o texto do Folha:
Depois de receber do pai um soco na cara, Lobão começou a gritar para que saísse do quarto enquanto terminava de fazer as malas. Estava sendo expulso de casa. O velho não saía. Avistou, então, os dois violões em cima da cama. Ainda pensou: “O preto ou o de nylon?”. O de nylon. Pegou o instrumento e fez dele uma clava. Deu com força na cabeça do pai repetidas vezes. O homem caiu no chão, arrastou-se para fora do quarto tentando fugir dos golpes, que continuavam. Apanhava em silêncio. Ensanguentado, conseguiu chegar à escada.
Em última tacada, o filho o empurra pelos degraus. Só sossegou porque não havia mais violão para continuar batendo. Em seguida, chamou a irmã: “Vamos sair deste hospício”. Nunca mais voltou para casa. Tinha 19 anos. Hoje, aos 53, o músico reúne histórias como essa -algumas ainda mais pesadas- na volumosa autobiografia “Lobão – 50 Anos a Mil”.
O livro foi escrito com o jornalista Claudio Tognolli. Enquanto o biografado ia fundo nas próprias lembranças, Tognolli fazia a pesquisa factual: compilava notícias publicadas nos últimos 30 anos, recolhia os inúmeros processos judiciais que Lobão teve de responder, entrevistava outros personagens.
O material jornalístico não se mistura às memórias, só as completa. Vem intercalado em capítulos à parte que, segundo Lobão, estão lá “pra ninguém dizer que sou louco e estou inventando história”. O leitor impaciente pode pular esses capítulos sem nenhum prejuízo da narrativa. Mas é fato que, de tão extraordinárias, muitas das peripécias narradas parecem mesmo pura invenção.
Como o evento da primeira masturbação. Menino carola (pensava em ser padre), era fascinado pela figura do Jesus crucificado, “tinha tesão naquela sunguinha”. Construiu, na oficina caseira do pai, uma cruz de seu próprio tamanho e arrastou-a nas costas até o quarto. Fez ali sua solitária estreia sexual. Outro episódio inacreditável tem como cenário o velório do poeta Julio Barroso (1953-1984). Prestando “uma última homenagem” ao amigo e parceiro morto, Lobão e Cazuza cheiraram cada um uma carreira de cocaína sobre o tampo do caixão.
Lobão conta que escreveu exatamente 871 páginas de memórias. Jogou fora dois terços delas na edição final.
“Eu me tratei como um personagem”, diz. “No começo, estava seguindo um caminho mais existencialista. Depois, optei pela velocidade e intensidade. Como se eu fosse um Indiana Jones.”
As aventuras do mocinho se confundem sempre com a do bandido. Incluem um período de três meses na cadeia, condenado por porte e consumo de drogas. E, após a saída da prisão, uma relação íntima com traficantes e outros marginais nos morros cariocas. Há contos divertidos, como o dia em que ele e a irmã obrigaram a mãe a fumar maconha. Ou o golpe que deu na Blitz, uma de suas bandas, escondendo deles que ia sair em carreira solo só para aparecer junto da turma numa capa de revista.
Outros casos são trágicos. Somam-se crises de depressão, tentativas de suicídio dele (por overdose de Rivotril) e da mãe -que, por fim, conseguiu acabar com a própria vida e ainda deixou uma carta culpando ele, o filho. “O livro inteiro sou eu morrendo muitas vezes, de várias maneiras”, ele diz. “E depois, sempre, me reinventando.” É mais que isso. A partir de sua trajetória turbulenta, Lobão traça um painel daquela geração da música pop brasileira, construída e consagrada entre o final dos anos 1970 e meados dos 1980. Percorrem o livro, entre tantos, Marina Lima, Ritchie, Cazuza, Lulu Santos, Evandro Mesquita, os Titãs, a Gang 90, Herbert Vianna.
Os desentendimentos com este último mereceram espaço generoso. Lobão coleciona uma série de histórias que, segundo ele, comprovam uma “obsessão” do líder dos Paralamas do Sucesso por sua pessoa -incluindo plágios e sabotagens. “Lobão – 50 Anos a Mil” termina quando o cantor chega a São Paulo para morar, em 2008. É vida nova. “O que mais me deixou orgulhoso é que o livro está bem escrito”, diz. “Se, teoricamente, tudo o que eu contei ali fosse mentira, ele valeria como um bom romance.”































































