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London Calling
Postado em Atitude em agosto 12, 2011 por SchaffnerArtigo do jornalista Fernando Navarro, do El Pais, sobre a música do The Clash e os distúrbios em Londres:
Não deixa de ser paradoxal: o governo britânico havia eleito há alguns dias “London Calling” como canção oficial para a campanha publicitária dos Jogos Olímpicos de 2012. Nada tinha a ver o hino do punk rock com a pompa do maior evento esportivo (e comercial) do mundo. Hoje, as imagens da capital britânica ardendo revestem jornais e imagens na TV. Como se estivesse se libertando de uma camisa de força, a canção cobrou seu significado original nas ruas, onde a raiva e o desencanto se transformaram em violência e distúrbios.
Seguramente, muitos dos jovens encapuzados que saqueiam o comércio em Londres e outras cidades nunca tinham ouvido The Clash, ainda que seja difícil imaginar que não tenham recebido alguma ressonância de “London Calling”, um dos discos mais citados por músicos de todo tipo e que aparece periodicamente nas listas de “o melhor de…”. E contudo, de alguma maneira, é como se os textos de Joe Strummer ganhassem vida mais de 30 anos depois que “London Calling” promovesse The Clash não somente como um grupo com um radar musical deslumbrante, mas também como uma referência ideológica. Se os Sex Pistols eram provocação acima de tudo, Strummer, Mick Jones e companhia deram ao punk amadurecimento e consciência social. Seu aparente niilismo conhecia o peso da realidade e da História, suas letras buscavam a ação de uma sociedade britânica atolada na depressão econômica.
“Londres chamando as cidades distantes / agora que a guerra é declarada / e a batalha começa / Londres chamando ao inferno / saiam do armário, meninos e meninas.” Com suas guitarras cortantes, assim começa a letra de “London Calling”, que muitos na internet querem tornar o hino oficial dos protestos. Para dizer a verdade, o cenário de 1979 se parece muito com o de 2011.
Ainda que se tenda a dizer que o punk britânico, com os Pistols e The Clash na cabeça, nasceu como resposta ao conservadorismo de Margaret Thatcher, convém recordar que o brutal “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols” saiu em 1977 e The Clash já tinha três trabalhos nas costas antes que a Dama de Ferro chegasse ao poder em maio de 1979. Como hoje, uma boa parte da sociedade foi golpeada pela crise econômica dentro de um ambiente de marginalização e discriminação.
O punk do The Clash era fruto do chamado Inverno do Descontentamento. Com a ressaca mundial que a crise de petróleo de 1973 deixou, o primeiro-ministro britânico, o trabalhista James Callaghan, teve que renunciar em 1979 quando o país estava havia anos em queda livre e se encontrava em paralisia permanente entre greves gerais, desemprego e inflação fora de controle. Antes, como agora, o trabalhismo não soube dar resposta à depressão econômica, e os conservadores chegaram ao número 10 de Downing Street com um programa de cortes de benefícios. A tensão dos cidadãos aumentou até saltar a faísca da revolta. Foi Thatcher, e agora Cameron, quem não ofereceu garantias, mas pediu mais sacrifício a milhões de pessoas em uma situação dolorosa. A violência de rua e racial nos bairros mais pobres se sucedeu em vários episódios nos anos 80 como hoje brotam em diversos pontos do Reino Unido.
“London Calling” se encerra com “Train in Vain”, canção que representa o sentimento de perda e abandono, presente na revolta atual. Embora The Clash nada tenha influído nos protagonistas destes distúrbios, que andaram escutando música eletrônica ou rap, se Joe Strummer levantasse a cabeça, teria uma boa razão para pegar uma guitarra e compor uma nova canção.
Premonição
Postado em Atitude em agosto 11, 2011 por SchaffnerCampanha da Levi’s, tirada do ar após os protestos em Londres. Vi no Trabalho Sujo
Vida Loka
Postado em Atitude em julho 11, 2011 por Schaffnerdo xico sá:
A beleza é passageira, a feiura é para sempre.
Corra, Lola, corrra, veja este filme em cartaz nos tais grandes centros. Veja, Lola, veja.
Se não estiver nos grandes centros e ponha aspa nisso, amiga, já, veja nos melhores camelôs da praça. Pode baixar também agora em um milhão de sites. Lindo, vento só a favor do compartilhamento generalizado.
Agora voltemos à bagaceira, please.
O artista francês Serge Gainsbourg (1928-1991) sabia disso e usava tal sabedoria como uma grande vantagem. Assumia com muito humor o fato incontestável de ser um mal-diagramado.
Também pudera, esse “pequeno detalhe”, a aparência, nunca impediu que Juliette Gréco, Jane Birkin e Brigitte Bardot, para ficarmos apenas nessa santíssima trindade, ajoelhassem diante daquele nariz.
O homem, o mito, o anti-herói veio ao mundo com a missão de provar como as fêmeas, mesmo as deusas, nunca foram fundamentalistas em matéria de dotes estéticos dos marmanjos. Levam em conta o talento, o charme, a pegada, a graça de viver. Recursos que sobravam na despensa do châteaux bem frequentado do nosso amigo.
É o que vemos no filme sobre a trajetória de Serge, que estreou sexta agora em SP. Ao contrário do que sempre acontece com os títulos risíveis dos cartazes no Brasil, desta vez acertaram por completo na versão nacional: “Gainsbourg – O homem que amava as mulheres”.
Esta é a história em apenas uma linha, apesar de se apropriar de outro cartaz, o do filme homônino de Truffaut.
No original, a obra do diretor francês Joann Sfar foi batizada “Gainsbourg, Vie Héroïque” (Gainsbourg, vida heróica). E ponha heróica nisso. Da abertura, quando o menino judeu Lucien Ginzburg –nome verdadeiro do artístico Serge- enfrenta o pesadelo da França invadida pelos nazistas à subida dos créditos na tela, com a “decadence avec elegance” do anti-herói.
A devoção às mulheres é o rito gainsbourguiano desde criança. O primeiro alumbramento diante das moças, como na imagem daquele poema de Manuel Bandeira, foi ao espiar, no seu liceu de pintura, uma modelo viva nuazinha de tudo. Mesmo contra a orientação dos superiores, o pequeno Lucien persegue a beldade com insistente voyeurismo.
Com um discurso amoroso precoce, convence a modelo a posar para ele, inocente pintor. Neste momento o filme poderia muito bem ser narrado pelo doutor Sigmund Freud.
As cenas infantis descortinam o futuro do guri Gainsbourg. E não só na arte de amar as mulheres. Na desobediência permanente às ordens e esquemas. Assim como a criança aprontava no liceu, o adulto esnobaria a indústria da música com o seu jeito livre de revolucionar a chanson française.
Por mais que o diretor estreante do filme, famoso como autor de histórias em quadrinhos, diga que cumpriu o plano de fazer apenas uma comédia musical na linha de “Todos Dizem Eu Te Amo” (1996; Woody Allen), não acreditem. Sim, as belas canções do personagem principal emendam a narrativa.
A fome de viver de Serge, entre o riso debochado e um certo existencialismo, no entanto, derrubam a tese e a modéstia do senhor diretor de cinema. O filme é um baita drama biográfico, bonito e melancólico, com o homem que amava as mulheres vivendo toda a consequência de se entregar ao caminho do excesso. (Parte 2 da crônica no post acima).
Ébrio
Postado em Atitude em junho 24, 2011 por Schaffner
“O álcool antes dos quarenta é mais alegre do que triste. As noites de quem bebe são melhores do que as de quem não bebe. As conversas de quem bebe são mais divertidas do que as de quem não bebe. As pessoas que bebem são mais atraentes que as que não bebem. A sensação de voltar para casa com o dia claro numa terça-feira e olhar para as pessoas que não bebem a caminho de um escritório onde vão passar dois terços do dia orgulhosas porque ao menos não estão como acham que você está, um último conhaque com Nescau na padaria e as pessoas que não bebem dentro dos carros achando que você é apenas um idiota de quarenta anos que não enxerga que não tem mais dezoito, e a sensação de saber que no fim do dia e do mês você estará exatamente como todas elas, tendo pago ou não o seu aluguel, tendo ou não um trabalho, um casamento, um plano de saúde, um vaso de flores, a sensação de que no fim dá tudo na mesma embora você aproveite cada minuto mais intensamente que qualquer dessas pessoas é que faz você sair da padaria e caminhar trocando as pernas e dar oi para o porteiro e entrar em casa e não ter vergonha de cair na cama de sapatos até que a sua terceira mulher resolva dar um basta nisso.”
Michel Laub, Diário da queda.
































































