Máquina alguma de poupar trabalho
Eu fiz, nada inventei,
Nem sou capaz de deixar para trás
Nenhum rico donativo
Para fundar um hospital ou uma biblioteca,
Reminiscência alguma
De um ato de bravura pela América,
Nenhum sucesso literário ou intelectual,
Nem mesmo um livro bom para as estantes
- apenas uns poucos cantos
vibrando no ar eu deixo
aos camaradas e amantes.
A Petrobras lançou hoje um projeto chamado Compacto. São videocasts com músicos nacionais. Toda semana, um programete vai ao aro site da petrolífera. Na estreia, Siba, ex-Mestre Ambrósio, e Fernando Catatau, cabeça pensante do Cidadão Instigado. Massa.
Postado em Fotografia em junho 27, 2010 por Schaffner
A Folha deste domingo trouxe uma matéria bem legal sobre o clube do bang-bang, grupo de fotógrafos de guerra que virou livro e agora tá prestes a ganhar a telona. Ó o texto do Zé Geraldo Couto:
“No final de setembro de 1990, a polícia do regime segregacionista do apartheid irrompeu no escritório da AP, a lendária agência de fotos norte-americana Associated Press, em Johannesburgo. Procuravam o fotógrafo Sebastian Balic, bem como as fotos que ele havia tirado alguns dias antes, uma delas em especial: a que mostra um homem bem no centro do enquadramento, numa tentativa de agachar-se ou levantar-se, envolvido por um halo de chamas alaranjadas e azuis, típicas da combustão de gasolina. Aparecem também duas outras pessoas: uma delas golpeando-o com um facão; a outra era ainda um menino.
A polícia alegava querer as fotos e o depoimento do fotógrafo para poder identificar os algozes daquele homem que ficou conhecido como “tocha humana”. A crueza da cena era inédita nos jornais americanos e europeus, que costumam evitar chocar os leitores com fotos de violência extrema. Não foi o caso da foto da “tocha humana”, que, distribuída pela AP, ganhou as páginas dos jornais e assim informou ao mundo a gravidade da tragédia que se desenrolava a cada dia nos bairros negros de Johannesburgo.
Sebastian Balic sumiu do mapa, para não ser forçado a prestar depoimento; a AP o enviou para Londres e, em seguida, para Belgrado, onde outras guerras cruentas, as dos Bálcãs, geravam trabalho para fotógrafos como ele.
Alguns meses depois, em abril de 1991, a foto da “tocha humana” ganharia o mais importante prêmio do fotojornalismo mundial: o Pulitzer. E Sebastian Balic, na verdade um iniciante, entrou para a elite do fotojornalismo mundial -mas atendendo por seu nome verdadeiro, Greg Marinovich. Marinovich fez parte do “Clube do Bangue-Bangue”, grupo de jovens e intrépidos fotógrafos que, todos os dias, se embrenhavam nas zonas conflagradas do bairro de Soweto, em Johannesburgo, para documentar o fogo cruzado entre os partidários do Congresso Nacional Africano (CNA), em sua maioria da etnia xhosa, e os simpatizantes do Inkhata, o partido radical dos zulus, insuflado pela minoria branca racista para solapar a transição para a democracia plurirracial.
Dos quatro membros originais do “clube”, Ken Oosterbroek morreu baleado num confronto e Kevin Carter se matou. Gary Bernard, uma espécie de quinto elemento do grupo, também cometeu suicídio. Sobraram Marinovich (ferido quatro vezes) e João Silva, que registraram a saga no livro “O Clube do Bangue-Bangue” (trad. Manoel Paulo Ferreira, Cia. das Letras), que em maio teve sua versão cinematográfica apresentada no Festival de Cannes.
Dirigido por Steven Silver, sul-africano radicado no Canadá, o filme apresenta, no papel de Marinovich, o americano Ryan Phillippe, de “Gosford Park” (Robert Altman) e “A Conquista da Honra” (Clint Eastwood). O fotógrafo acompanhou as filmagens, realizadas no bairro de Soweto e nas favelas de Thokoza e Alexandra. “Foi difícil voltar a certos lugares”, diz ele. “A gente fica amarrado às emoções para sempre. A primeira morte que você presencia é que nem o primeiro amor.”
Marinovich se comove sobretudo ao lembrar de Kevin Carter, o amigo que se matou em 1994, aspirando a fumaça do escapamento de seu carro, três meses depois de também ter conquistado o Pulitzer pela célebre foto de um abutre espreitando uma criança famélica do Sudão. “Essa foto foi decisiva na crise que levou Kevin ao suicídio”, afirma Marinovich. Na época, a imagem suscitou um acirrado debate sobre a ética do fotojornalismo. Carter foi acusado de pensar só na foto e deixar a criança desamparada, em vez de levá-la até um lugar seguro. Limitou-se a espantar o abutre. “Não sei se ele agiu certo, pois eu não estava lá. O João Silva, que estava, acha que a criança não corria perigo de fato.”
Marinovich diz ter falado com pessoas que trabalharam no Sudão; segundo elas, a mãe tinha ido buscar ajuda, alguém levou a criança para o posto de assistência. “O que o Kevin deveria ter feito? Para o bem dele próprio, o melhor teria sido pegar a criança e levá-la até onde fosse cuidada, de modo que o coração dele, Kevin, pudesse ficar em paz.”
“Se alguém precisa de ajuda, eu ajudo. A única pergunta é: devo fotografar ou ajudar primeiro? Eu não sou uma câmera, sou uma pessoa”, diz ele. “O problema é se você vai ajudar alguém em detrimento de fazer o seu trabalho. A foto em si é uma ação, é um modo de interferir na realidade.” Além das drogas e do álcool, problemas recorrentes entre os fotógrafos que vão para a linha de frente, a adrenalina que o corpo libera em situações de perigo pode ser viciante. O mesmo acontece também com soldados, paramédicos, policiais, paraquedistas. “É parte do prazer do trabalho”, explica Marinovich. O que levou aquele jovem que nem bem se iniciara no jornalismo a se meter numa cena conflagrada como a de Soweto? “Éramos rapazes brancos de classe média, protegidos em nossos bairros, em nossas casas. O que sabíamos? Nada.” Segundo ele, nos anos 70, “tudo era orquestrado, organizado e oculto”: “A brutalidade era escondida. Mas a gente suspeitava que havia algo errado”.
Foi a mesma curiosidade que levou esse filho de croatas a viajar em 1991 para a zona de conflito na Bósnia, onde conheceu a jornalista austríaca Heidi Rinke, que viria a ser sua primeira companheira. Hoje, Marinovich está casado com a sul-africana Leonie, com quem tem dois filhos.
Aparentemente curado do vício da adrenalina, o fotógrafo diz que não cobre mais guerras, terremotos, situações de violência extrema ou desgraça explícita. Como assim? Em sintonia com a estabilidade democrática de seu país, Marinovich estaria se acomodando a uma vida burguesa, colhendo os louros dos anos de trabalho duro que o tornaram uma estrela do fotojornalismo mundial? Longe disso. Ele está envolvido em dois grandes projetos interligados de jornalismo multimídia. O Twenty Ten é um projeto temporário montado para a Copa do Mundo, para produzir conteúdo jornalístico comercializado por uma agência holandesa. Depois da Copa, Marinovich e Leonie, sua mulher, voltam a tocar a storytaxi.com, agência de notícias “puramente africana”.
E quais são os desafios para o fotojornalismo, agora que a violência crua dos confrontos políticos e raciais está aparentemente superada? “A violência, as tensões, são mais sutis. A vida é vivida na fronteira, no limite”, diz o fotógrafo, editor e escritor. A entrevista está terminando, e uma bela luz de outono banha Johannesburgo, visível à distância do alto do bairro nobre de Randburg. Marinovich me leva até o portão e, antes de se despedir, me pergunta se é verdade que 200 mil pessoas assistiram no Maracanã à final da Copa do Mundo de 1950.
Respondo que sim e ele, maravilhado, confessa: “Eu adoraria ver um jogo num estádio brasileiro. De preferência um Flamengo x Santos. Quem sabe, quando as crianças crescerem, Leonie e eu nos mudemos para o Brasil ou para a Colômbia. Na América do Sul, assim como na África, tudo ainda está por acontecer”.
Postado em Balaio pop em junho 26, 2010 por Schaffner
No texto do Gabriel Izidoro, pescado pelo Fabrício Cardoso, uma boa explicação para parte do meu fascínio pelo Uruguai e pelos castelhanos.
“O Uruguai é todo errado. O Uruguai faz siesta. O Uruguai usa papel carbono nos seus bancos sem porta giratória e seguranças de olhar malicioso. Lembra do papel carbono? O Uruguai leva duas horas para terminar uma refeição. O Uruguai tem um presidente cuja única posse declarada é um Fusca 87.
Albert Einstein e Stephen Hawking ensinam que o tempo é a quarta dimensão. Eles nunca foram além de Aceguá, senão descobririam a quinta: o tempo uruguaio. O tempo uruguaio, assim como a subida do morro, é diferente. Você já tentou pedir informação ou as horas _ só as horas _ no Uruguai? A crônica em que se transformará a resposta é um dos indícios de que eles têm uma dimensão paralela para a charla. O Uruguai preza a lentidão das pequenas satisfações.
Tanto quanto os imensos dramas. O Uruguai tem memória para os personagens, mas acredita que nenhum homem é maior que sua façanha. Alcides e Obdulio deram um Maracanazzo ao país, mas não os nomes a gerações e gerações seguintes de seus filhos. O Uruguai acha que todo mundo é mais ou menos igual.
No tempo uruguaio, há pobreza, mas não miséria. Há necessidade, mas não vilania. Nem idolatria. Um médico pode caminhar tranquilamente pela rambla de Carrasco, seja ele ex-presidente ou detentor de um Oscar.
No tempo uruguaio há pausas _ para comer, atravessar a rua ou tomar um mate. O Uruguai acha que todo mundo é mais ou menos igual, exceto quem não toma mate ou, quando sua gente atravessa a fronteira ao norte, restaurante que não oferece pão de cortesia. Mesquinharia com pão é algo que definitivamente não pertence ao tempo uruguaio.
Como outras coisas tampouco. E quando coisas de mundos diferentes colidem dá problema. O futebol uruguaio, por exemplo, foi corroído quando se encontrou com o futebol moderno. Do jeito que o futebol moderno é. Incompatíveis.
Ainda bem que o Uruguai é todo errado. O time que está na África do Sul vem da quinta dimensão. De um lugar em que os jogadores não se escondem para comemorar as vitórias com parrillada, nem reclamam da bola. E onde o técnico, além de convidar os adversários a assistir seus treinos abertos, divulga a escalação com dois dias de antecedência. Onde ganhar importa menos que ser bravo.
Claro que soa mais romântico do que prudente. Mas medo é algo que definitivamente não pertence ao tempo uruguaio.”